2.25.2008

Óscares

2.19.2008

Prognósticos só depois dos Óscars


Vaticinios para os Óscares


Estou a dedicar-me à maratona de ver todos os candidatos de enfiada. Ainda faltam os importantes Vale de Elah e Haverá sangue.

Uma desilusão forte foi Sweeney Todd. Como Gore não é para levar a sério com as suas personagens bidimensionais e uma costela moralista. Como entretenimento pisa demasiado o risco; Há litradas de sangue, muitos cadáveres e aquelas populares tartes. É um Dickens com um serial killer. Mas infelizmente ele canta. Todos cantam e ...muito mal. Aquelas cançonetas não lembram a ninguém ó Burton. O filme conta-se numa frase: " A vingança serve-se fria e paga-se cara".

Saltemos para o filme dos irmãos Cohen onde o dinheiro tudo corrompe. Bardem o serial killer tarado rouba todo o filme com a sua pistola de ar comprimido de matar gado. Um homem fazer uma interpretação assim e ter simultaneamente aquele penteado... já ganhou o óscar! O filme não é só Bardem, as imagens do deserto são reminiscentes de um grandioso John Ford, o incessante vaguear forçado do personagem principal teleporta-nos para road movies como Bonnie and Clyde. O filme é um forte candidato a melhor filme e melhor realização. E sempre que Bardem aparece lá nos encolhemos na cadeira.

Michael Clayton é um filme espertalhaço com uma trama ao estilo de Syriana onde o competente Clooney também entrava. Lá para o meio do filme começamos finalmente a perceber as ligações entre os diferentes personagens e o puzzle começa a compôr-se. O filme vive mesmo desse efeito de puzzle já que a trama é simples e banal. Há uma empresa de advogados onde Clooney trabalha que está a defender uma grande empresa num longo e importante processo judicial que mete OGMs, pelo meio há gente muito ruim e tudo acaba bem porque Clooney é o maior. Tilda Swinton é irrepreensivel no papel de cabra pérfida e cruel, mas no fim trama-se porque Clooney já tomou um Nespresso what else! e não anda a dormir.
Tilda leva nas calmas o óscar de melhor secundária se a Blanchett não lho roubar. (Quanto a Clooney ganhará um óscar quando fizer uma personagem gay e tirar a roupa).


Nas animações não me parece que o sensaborão Surfs up consiga bater o delicioso Ratatouille. E o Persepólis tem uma animação que parece iguazinha aos desenhos da novela gráfica em que se inspira.

Quanto a actor principal, realizador e melhor filme: vai ser preciso ver o Haverá sangue e o Vale de Elah para apostar. Os restantes candidatos não me parecem ter actuação à altura, só Day-Lewis ou Tommy Lee Jones ganharão.

O ano foi pobre em espaço para papeis femininos. Basta uma volta pelos nomeados para ver que na maior parte dos filmes não há papeis principais femininos. Discriminação no seu melhor. A excepção é a brilhante Marion Cotillard que tem vindo a coleccionar prémios com a sua Piaf em La vie en rose/ la môme. Mas o facto de se tratar de uma actriz desconhecida nos EUA e ser um filme europeu pode não a beneficiar.

Uma pequena nota para as nomeações de curtas metragens animadas, onde pontua um filme fantástico já lançado no mercado português: "Pedro e o Lobo" de Suzie Templeton com a música de Prokofiev é uma animação stop motion que o próprio Prokofiev teria adorado! (critica no Times). O filme tem cerca de 30 minutos. Este é o único filme nomeado nesta categoria que já vi. No entanto vi "the old man and the sea" um filme anterior de Petrov que ganhou em 1999. Petrov é nomeado este ano com "my love" (moya lyubov no original) um filme que parece usar as mesmas técnicas de animação e estilo gráfico do de 1999 (pintura a óleo sobre vidro). Conhecendo o trabalho de Petrov diria que o filme dele deste ano é de certeza um forte candidato.

Ah, pois, não vale a pena falar de Juno e Expiação. Juno está lá porque é politicamente correcto pôr uma parvoíce com um tema daqueles e Expiação está lá porque tinha de lá estar mas enfim não acrescenta nada.


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5.28.2007

Triologia Qatsi



Adquiri recentemente a triologia qatsi do realizador Godfrey Reggio. Trata-se de 3 filmes do mesmo tipo cuja temática se centra nos efeitos perniciosos do progresso e do desenvolvimento tecnológico (e se quisermos acrescentar .... da globalização). Não têm actores nem enredo e também não pretendem ser documentários pois não há narração nem sequência lógica óbvia na forma como as imagens do filme são mostradas. Trata-se de 3 objectos puramente estéticos construídos em torno de uma ideia - a de que o progresso tem efeitos negativos na civilização. Dito isto a maior parte das pessoas pode logo fugir a sete pés porque se trata de 3 filmes de culto bastante estranhos que se limitam a mostrar-nos 90 minutos de imagens musicadas pelo Philip Glass esse maldito minimal repetitivo!).
A verdade é que os filmes têm os seus momentos lamechas (como rostos de criancinhas sujas em slow-motion e aves sobre um pôr-do-sol) e os seus momentos a armar ao pingarelho (a começar pelos títulos que são palavras em dialecto Hopi). Se descontarmos tudo isso temos 3 bons filmes que do ponto de vista técnico são soberbos.

No primeiro filme Koyaanisqatsi (1982) (life out of balance) o recurso a imagens aceleradas e em slow-motion em conjunto com uma montagem fabulosa produz um efeito sensorial que me agradou bastante. Este filme foi inteiramente filmado nos EUA, embora muitas das imagens nos remetam para outras paragens. O filme aborda o tema das alterações feitas pelos humanos na natureza e do frenesim que se tornou a nossa vida como escravos da grande cidade. Neste filme a música do Philip Glass não é grande coisa lembrando fortemente o inaudível "Einstein on the Beach". O filme demorou 6 anos a ser terminado.

No segundo filme Powaqqatsi (1988) (life in transformation) explora-se o abismo entre o mundo civilizado e tecnológico e as sociedades 3º mundistas. Enquanto no Nepal e na Ìndia, hordas de pessoas no limiar da pobreza executam trabalhos braçais indignos da condição humana, mas mostram uma dignidade enorme, em Hong Kong, hordas de engravatados deprimidos têm tudo o que o consumismo pode fornecer. Visualmente não tão gratificante como o primeiro filme, este filme tem como ponto forte o que as imagens mostram e não a qualidade fotográfica ou da montagem. Mostra-nos a vida real em lugares reais com pessoas reais. Filmado em lugares geograficamente diversos mas que cobrem a totalidade do globo (Brasil, Índia, Nepal, Egipto, Peru, China, Kenia, Alemanha, França) mostra-nos estilos de vida muito diferentes do primeiro filme, centrados na terra, em locais sem luz nem água onde a mais pequena tarefa exige esforços sobrehumanos. Abre com imagens filmadas nas minas brasileiras da serra pelada, semelhantes às fotografias de "trabalhadores" de S. Salgado. Curiosamente, estas imagens do filme e as fotos de Salgado são contemporâneas e eu não consegui descobrir se um dos trabalhos se inspirou no outro ou não! Mais para a frente, há imagens de prédios em Hong-Kong que são muito semelhantes às fotos de Michael Wolf de arquitectura de densidade, mas neste caso o filme antecipou-se claramente ao fotógrafo pois as fotos de Wolf foram tiradas muito depois. Glass parece ter compreendido melhor este filme; a banda sonora é muito melhor que a do anterior.
Quanto ao Terceiro filme Nagoyqatsi (2002) (life as war) ainda não o vi, mas palpita-me que vai ser na próxima semana.

Produtores dos filmes: Coppola, Lucas e Soderbergh.

O ideal para ver estes filmes é ter a mente aberta, não estar à espera de uma coisa convencional e deixar-se levar... Cada um é livre de interpretar e sentir as imagens e a música como bem entender. O como diziam os posters de um dos filmes:

"Until now, you've never really seen the world you live in."

Página oficial dos filmes onde se pode ouvir trechos da música.

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1.12.2007

O Mal não compensa



Rabbit. Um filme a ver .
disponível no youTube.

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9.21.2006

Cremáster

cremaster

E hoje temos um post sobre anatomia zoológica inspirado naquele badalado ciclo de 5 filmes quepelo nome de Cremaster. Tudo o que há a saber sobre o ciclo Cremaster resume-se em 5 ou 6 linhas:

1- Cremaster é o nome do músculo que suspende os testículos.

2- O ciclo de filmes (ou instalações video ou o que raio lhe quiserem chamar) foi realizado por um Sr. que se intitula artista e se chama Matthew Barney. Anteriormente apenas conhecido por ser namorado da cantora islandesa Bjork.

3- Muito hype rodeou os filmes, tendo estes sido alvo de uma exposição no Guggenheim de N.Y. que ocupou todo o edificio e envolveu objectos expostos e performances ao vivo. A fila para a exposição nalguns dias dava a volta ao quarteirão (mais um bocadinho e atravessava o central park!).

4- Os filmes são objectivamente uma das piores coisas que eu vi, quer como cinema quer como instalações video.

5- Por passaram no King há uns tempos.

Desengane-se quem espera ver Cremasteres ao vivo nestes filmes. Não se trata desse tipo de filmes!

Comecei por ver um documentário com o autor, que mostrava também a exposição no Guggenheim. Logo uma série de explicações do próprio envolvendo ciência, pseudo-ciência, filosofia e conceitos transcendentais num palavreado muito tosco cheirou a esturro. O título da série de filmes não é explicado, o conteúdo dos filmes não é explicado, escolhas de locais e personagens têm razões obscuras e fica-se com a ideia que o Sr. estava completamente pedrado quando fez aquilo tudo ou então é esquizofrénico e a família nunca deu por isso.

De seguida temos a parvoeira de os filmes numerados de 1 a 5 deverem ser vistos pela ordem 3, 2, 5, 1, 4. Na verdade podem ver-se em separado e por qualquer ordem porque não têm quase nada em comum uns com os outros!

Comecei pelo Cremaster 4. Tem 42 minutos e som mono. Foi filmado na ilha de Man e em mais de metade do filme vemos 2 pilotos em carros de corridas com cores fulgurantes, um amarelo e outro azul, vestidos com fatos da mesma cor numa estreita estrada da ilha. As mesmas imagens dos carros repetem-se várias vezes e são enxertadas noutras e passadas a diferentes velocidades (uma espécie de samplagem video). A outra metade do filme é passada num barracão num pontão. Mostra-nos algumas estranhas personagens a fazer macacadas.... Nãofalas e que me lembre nãomúsica, ruídos. Se quisermos ser muito bem intencionados poderemos qualificar este filme como "hermético" ou "críptico". Indo um bocadinho mais longe eu diria que o conteúdo cinematográfico é nulo usando técnicas básicas sem resultados de monta. Como obra de arte é um objecto incoerente que nem choca nem espanta antesum desejo irreprímivel de sair do sofá e ir dormir.

Para dar uma hipótese ao Sr. comecei a ver o Cremaster 3. Aparentemente mais uma tentativa do Sr. Barney para ascender à categoria de intelectual elitista. Mas completamente falhada. O filme é tal como o anterior desprovido de qualquer sentido e não desperta qualquer emoção ou reacções em quem o .

Como a minha paciência tem limites os restantes ficaram por ver. É minha convicção que não trazem de novo e nenhum desejo de os ver me move. Por isso fundo do armário com eles!

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7.10.2006

Alvíssaras

Alvíssaras às almas caridosas que puseram tais preciosidades disponíveis para download.

Expoentes máximos do expressionismo alemão cujos direitos de autor caducaram. Faça download nos links abaixo:

Em post anteriores já falei de alguns dos filmes acima. Consulte os arquivos do Blog.

Destes o único que nunca vi foi o Golem. Vou a correr fazer o download.

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3.06.2006

Óscares e Filmes

oscar
Vi de enfiada Brokeback Mountain e Crash há uns dias atrás. O Coelho-Homem já está na calha para ser visto há uns tempos ou não fosse eu fã de Nick Park. Os outros dois que pretendo ver - Capote e Good Night and Good Luck - ficam para 2as núpcias. Capote porque tem P.S.Hoffmann finalmente num papel principal a mostrar o que vale e a encher o écran. Os papeis principais não vivem só de caras bonitas. Good Night porque o tema interessa, o enredo parece bom e o preto-e-branco cai que nem uma luva.

Sobre os vistos congratulo-me com a vitória de Crash sobre Brokeback. Brokeback não passa de um filme bem feito com belas paisagens e um tema actual que merece divulgação e debate - a homossexualidade. Mas as paisagens e os cowboys não são John Ford's e a história de amor não valeria um chavelho se fosse hetero. É cosido com guitas e inverosímil: Alguém se consegue apaixonar por uma pessoa que não conhece ao fim de meia-dúzia de dias de isolamento numa montanha? Alguém concebe uma história de amor em que a intimidade e o romance se cifram num beijo violento e mal dado e numa cena de sexo rápida e à bruta sem ternura nenhuma? Eu não!
Mas compreendo perfeitamente que o drama das personagens toque muito fundo todos aqueles que já sofreram na pele as dificuldades de viver neste mundo e ser homossexual.

Sobre Crash, há a dizer que não perdia nada sem algumas cenas que parecem concessões. O enredo é muito bom, as personagens e os actores também. Don Cheadle e Tandie Newton estão brilhantes. O filme começa muito bem e assim segue até meio:
Quando estamos mal dispostos preferimos culpar os outros a reconhecer os nossos erros e para agredir outrém vale tudo, o que estiver mais à mão ou o que fizer mais mossa; neste caso diferenças raciais. Crash depressa nos mostra como somos completamente ignorantes em relação aos outros: Um persa e um àrabe não são a mesma coisa; Um chinês e um vietnamita não são a mesma coisa...e como é complicado ser intolerante, ser permeável a estereotipos e viver neste mundo.
Há um preto rico que embranqueceu, Há um preto ladrão que quer ser mais preto que os pretos, Há um polícia novato que quer ser Bom e há uma data de gente que só quer que os deixem Ser.
Passada a primeira metade do filme lá começamos a perceber que os personagens afinal não são monstros, são apenas humanos e co
mo tal muito falíveis. Lá para o final do filme percebemos que ninguém está imune.
Depois há dialogos fantásticos como quase todos os que decorrem entre Peter e Anthony, os 2 jovens delinquentes pretos; ou o que decorre entre Rick e o seu acessor sobre o medalhado iraquiano chamado Saddam.
Dispensáveis, dispensáveis, são a pirosa cena em que o hipercanastrão Matt Dillon é filmado em pose de herói contra um céu azul com um carro de bombeiros em fundo e a sequência do carro incendiado e do salvamento da mulher-Christine- que antecedem essa; o episódio final lamechas em que Don Cheadle desenterra o santinho com o pé; e grosso modo o facto de tudo acabar mais ou menos bem. Fosse este um filme europeu e a coisa acabava mal de certeza, mas os norte-americanos são gente optimista e cr
édula.

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Zemlya - Terra


zemlya
Zemlya (Terra) realizado por Aleksandr Dovzhenko em 1930 celebra a terra e o que ela nos dá. Todas as filmagens da natureza que existem no filme transmitem na perfeição a esmagadora beleza dos campos, das árvores de fruto, dos girassóis, das tarefas agrícolas e a extrema dignidade dos aldeões agricultores. Do vento na seara das imagens da abertura às maças trincadas pelo ancião moribundo e pela criança vivaz, o amor pela Terra transpira por todo o filme.

O filme é na verdade sobre a colectivização na Ucrânia e o enredo é mau , os actores também e a tradução Russo-Inglês da cópia que eu tenho é provavelmente horrível porque a maior parte dos dialógos dos intertítulos é incompreensível. Mas isso são pormenores... Visualmente é um marco histórico! O lirismo visual é comparavel ao brilhante Aurora de Murnau recentemente reposto em salas de cinema em Portugal.

Estão lá todas as características da sociedade soviética de 30, tal como um ocidental as enumeraria: A luta em grupo por um ideal com uma determinação extrema levada às últimas consequências, a filmagem com naturalidade de homens urinando e mulheres em pelo (coisas proibidissímas em cinema ocidental da época), a abordagem da morte como um mero fim de ciclo, a constatação de que uma revolução é uma Rosa mas traz espinhos.

Apesar de ser um filme de propaganda pago pelo governo, o resultado final vai muito para além disso, não chegando no entanto ao nível de um Eisenstein. A montagem é genial e sensual: a sequência acelerada que começa com a colheita do cereal e mostra todo o processo de processamento é fabulosa; a sequência final em paralelo também. No fim, percebemos claramente a comunhão do agricultor soviético com a terra e a sua ligação espiritual ao campo.

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1.05.2006

Freaks

freaks


Freaks (1932) de Tod Browning foi adaptado de um conto intitulado Spurs é isso mesmo, um desfile de gente bizarra. Um leque de anões, várias pessoas sem braços ou pernas, um hermafrodita, 2 irmãs siamesas, gente microcéfala e figuras bizarras afectadas por sindromas genéticos variados. Não existem efeitos especiais e os actores são mesmo pessoas deficientes. Tudo bem regado com sotaques estrangeiros (2 dos anões são alemães e outra personagem é feita por uma francesa) e uma história de terror.
O expoente máximo é o sr. Prince Randian nascido na Guiana que não tinha braços nem pernas, conhecido pelo torso vivo, uma espécie de salsicha humana. O actor viveu até aos 60 e tal anos, teve 5 filhos e conseguia fazer coisas como fazer sozinho a barba, acender um fosfóro, enrolar um cigarro e acendê-lo apenas com a boca. Movimentava-se arrastando-se sobre a barriga. Falava fluentemente 4 linguas ( hindu, inglês, francês e alemão).

freaks
Prince Randian

Mas o objectivo de Browning com este filme não era mostrar uma galeria de anormais. Longe disso, a história tem uma moral e Browning que em adolescente fugiu de casa para se juntar a um circo itinerante mostra uma grande ternura pelos actores. Browning, um desalinhado anti-glamour ao fazer dos deficientes os heróis do filme e dos fisicamente normais os vilões, subverte o convencional e mostra-nos que a beleza é mais espiritual que fisica. Beauty is in the eye of the beholder!
O filme foi muito mal aceite pelo público, emprateleirado pela MGM e proibido em alguns países. Reapareceu em 1962 no festival de Cannes tendo-se tornado imediatamente num filme de culto de sucesso.

tod browning
Tod Browning e vários actores de freaks.

Dos actores, apenas uma minoria eram actores profissionais, a maior parte pertencia a circos itinerantes. Grande parte deles foi imortalizada pelo fotógrafo Edward Kelty que fotografava cocktails em Manhattan, mas tinha como hobby nos tempos livres fotografar circos e carnivales, de preferência grandes fotos de grupo.

kelty

kelty
fotografias de E. Kelty

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12.19.2005

Nanook , o esquimó

nanook

Nanook, o esquimó é um filme de Robert J. Flaherty feito em 1922. É considerado o pai dos documentários por ter sido a primeira longa metragem da história do cinema a apresentar este tipo de abordagem. Contudo não pode ser verdadeiramente considerado um documentário pois a maior parte das cenas do filme apesar de mostrarem o quotidiano esquimó foram encenadas para a câmara. Flaherty com o seu interesse etnográfico e o desejo de registar o que o rodeava transformou-se de explorador e prospector profissional em realizador. Neste filme são de realçar as dificuldades técnicas de filmar no árctico com apenas 2 câmaras arcaícas que resistiram bem à humidade e a película usada que realça os azuis.

O filme retrata a vida de uma família verdadeira de esquimós ao longo de um ano com filmagens in loco do seu duro dia-a-dia. A caça, a pesca, as migrações, o comércio de peles, a construção de igloos e todas as dificuldades da vida sem tecnologia de 1922 num clima extremo como o do árctico são-nos mostradas nos 79 minutos que dura o filme. A preto e branco e com intertítulos seguimos a família do espontâneo Nanook– o pai, as suas 2 mulheres e os 2 filhos, um deles bebé, nas suas deambulações. Ficamos a saber que pescar à mão com um arpão exige destreza, que os salmões depois de pescados são mortos à dentada, que os esquimós da altura comiam foca crua, que por baixo das roupas feitas de pele estavam nús (incluindo o bebé que não apresenta nada que se pareça com uma fralda), que uma canoa pequena leva muita gente fora de vista, que se podem construir igloos só com um facão e que as tempestades para aquelas bandas podem matar mesmo quem é muito experiente.

O filme foi rejeitado por vários distribuidores mas quando estreou revelou-se um sucesso de bilheteira estrondoso. A curiosidade do público foi espicaçada pelo facto de Nanook ter morrido meses depois de terem terminado as filmagens. Morreu de fome. Encontrar comida onde nada cresce é um caso de vida ou de morte.

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6.15.2005

Cinema: Sunrise - Aurora (F.W. Murnau)

Sunrise Murnau
Continuando a série de
posts sobre o cinema dos anos 20 trago-vos hoje “Sunrise, a song of 2 humansde F.W. Murnau, que em português se chama Aurora. Realizado em 1927 nos EUA com um orçamento chorudo e total liberdade criativa do realizador o filme ganhou o 1º Óscar de melhor filme em 1929. A belíssima fotografia de Karl Struss e Charles Rosher também mereceu um Óscar.

O filme foi um flop comercial na época e em 1937 os negativos arderam num incêndio nos estúdios da Fox. É por isso um milagre que tenha chegado aos nossos dias recuperado e restaurado (a partir de uma cópia em acetato que existia num museu).





Sunrise MurnauO enredo baseado num conto de Hermann Sudermann “Die Reise nach Tilsit” é simples: Um casal de campónios vê a sua pacatez perturbada por uma sedutora vinda da cidade que se torna amante do marido. A sedutora convence o marido a assassinar a mulher e a ir viver com ela para a cidade. Quando está prestes a matar a esposa o marido arrepende-se. Para se redimir e compensar a mulher leva-a a passear na cidade e oferece-lhe todas as coisas fascinantes da vida citadina. Claro que mais tarde a desgraça irá bater à porta…..

Sob este enredo aparentemente simples o filme capta perfeitamente o contraste entre os valores e os estilos de vida citadino e do campo. E explora de forma brilhante o sentimento de culpa e o arrependimento do marido que constituem o ponto de viragem do filme. Antes imagens soturnas e naturalistas com uma iluminação romântica inspiradas nos retratos pastorais dos mestres holandeses (Vermeer e etc.), depois o movimento, a complexidade e a vida da cidade. O filme é essencialmente visual, com poucos intertítulos e uma banda sonora e efeitos sonoros discretos. É mesmo referido como um poema visual dado o lirismo das imagens e a qualidade da fotografia e da iluminação.

Sunrise Murnau
Do ponto de vista técnico o filme apresentava várias inovações como a utilização recorrente de exposições múltiplas, a iluminação das filmagens nocturnas e a filmagem com movimento de câmaras numa altura em tal não se fazia por razões óbvias. A cena no pântano é um disso um exemplo; uma câmara segue o personagem masculino a andar dentro de um terreno pantanoso durante a noite com uma grande lua de fundo - Tudo feito em estúdio com a câmara presa numa plataforma!

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5.24.2005

Das Cabinet des Dr Caligari


O que pode tornar fascinante um filme de terror feito nos idos anos 20 cuja filmagem não tem nada de especial?


caligariNo caso particular do Gabinete do Dr. Caligari e na minha opinião pessoal é apenas o facto do filme ser um dos expoentes do movimento expressionista alemão com o impacto visual que isso acarreta.
Uma corrente que manipulava a luz de uma forma inovadora, distorcia formas e usava a cor para traduzir estados de alma ao invés de usar representações realistas.
Os cenários são desconjuntadamente fabulosos, quase tão esquizofrénicos como alguns dos personagens. Sombras em forma de triângulos e espirais pintadas nas paredes, mobílias bicudas e desproporcionadas, superfícies deformadas e sinuosas, edifícios de esguelha meio pendurados, portas oblíquas, salas distorcidas com ângulos agudos nos cantos e tectos inclinados, dão a quem vê o filme uma sensação de desorientação e de estranheza, de “out of placement”.

O guarda-roupa, a maquilhagem e o desempenho dos actores também pertence ao mundo expressionista. Cesare, o sonâmbulo parece dançar na sua figura grotesca e o personagem Caligari é tão bizarro que quase se funde com o cenário.
O filme foi feito logo após a I grande guerra e a Alemanha debatia-se com problemas económicos. O orçamento era muito reduzido portanto foi necessário poupar. Poupou-se nos cenários e na iluminação. Os cenários foram todos feitos com papel pintado e alguma madeira. Como não havia dinheiro para a iluminação, o claro escuro de alguns sets foi concebido para substituir parte da iluminação.

caligari

Alguns críticos fazem uma interpretação sociopsicológica do filme como um metáfora do que se passava na Alemanha na época e um protesto contra as autoridades.O medo provocados pela instabilidade política e económica era evocado através de personagens sombrias. Os cenários representavam o estado da sociedade alemã da época. O sonâmbulo do filme representaria a Alemanha e Caligari seria as autoridades alemãs, que tinham incitado a população a cometer crimes – a guerra- por elas. O filme também é visto como uma premonição da subida ao poder de Hitler, um manipulador de mentes para fins malévolos, tal como Caligari. O que já me parece um pouco clarividente a mais.

caligari

A história é contada em flashback pela personagem Francis: O sinistro Dr. Caligari exibe Cesare, um perpétuo sonâmbulo com poderes divinatórios, numa barraca de feira. Este prediz que Alan, um amigo de Francis irá morrer no próprio dia. O que vem a acontecer. A morte de Alan é uma dentre uma série de bizarros assassinatos que ocorrem na cidade. Caligari e Cesare tornam-se suspeitos óbvios. Mais tarde descobre-se que são culpados. Caligari é perseguido por Francis até um hospital para doentes mentais. Onde fica a saber que Caligari é o médico chefe do hospital. Num surpreendente volte face final Francis é apresentado como um dos doentes loucos do hospital que narra esta história a outro doente e Caligari é afinal um homem são. Mas as cenas finais do filme deixam ainda a pairar no ar a questão: será Caligari menos louco que Francis?

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5.09.2005

The Birth of a Nation - Griffith

Tal como prometido o primeiro texto sobre o mosaico de filmes. Este vem mesmo a propósito e a tempo para as comemorações do 60º aniversário da derrota do regime nazi.

“The birth of nation” é uma adaptação do livro de 1905 “ The clansman” da autoria de Thomas Dixon, um padre racista. O filme tecnicamente muito sofisticado para a época contém importantes avanços artísticos e técnicos para a indústria cinematográfica*, incluindo uma cena colorida (que surge quase no final). Foi um sucesso de bilheteira na época apesar das suas 3 horas de duração e permanece um marco incontornável da história do cinema.


Na primeira parte mostra-se a introdução dos escravos negros nos EUA, a vida quotidiana dos personagens principais na fase pré-guerra civil de 1860 e a dita guerra. As personagens principais são duas famílias amigas, uma sulista, outra do norte, com as implicações que daí advém. Os membros das duas famílias defrontam-se na guerra havendo umas paixonetas à mistura. Os negros são caricaturados estereotipadamente como criaturas más ao longo de toda a primeira parte mas não é demasiado evidente o carácter racista do filme nesta parte.
A segunda parte pode ser considerada como muito mais racista mostrando os negros como selvagens vilões causadores da desgraça. Esta segunda parte mostra o que se passa no pós-guerra no seio das duas famílias e da sociedade - A reconstrução. A ascensão social dos negros e a miséria em que ficaram as famílias do sul. Mas o que interessa reter do filme não é a parte romanceada: Na segunda parte surgem os verdadeiros heróis do filme- O Ku Klux Klan- A organização que vai libertar a sociedade branca dos terríveis negros. O KKK é glorificado.

Pelo exposto fica a saber-se que se trata de um filme extremamente controverso. Na época suscitou um recrudescimento do Ku Klux Klan e dos sentimentos racistas nos EUA. Também ouve motins nalgumas cidades e 2 cenas foram mesmo censuradas.
Ao ver este filme cresce dentro de nós a dúvida. Devo eu condenar e vetar uma obra de arte se o seu conteúdo for ideologicamente condenável ou se for contrário aos meus valores? ( Para mim este foi o verdadeiro valor deste filme. Fez nascer em mim esta dúvida.)

Griffith defendeu-se das acusações de racismo com os seguintes argumentos:

- O filme é a adaptação fiel de uma obra da qual ele, Griffith, não era o autor.

- Todas as pessoas tinham o direito de livre expressão e pensamento quaisquer que fossem as suas ideias. Ao tentarem censurar o conteúdo do filme estariam a cercear essa liberdade.

- E por último um irónico : “Na altura em que fiz o filme eu não era racista.”

No inicio do filme surge o seguinte intertítulo:

“A PLEA FOR THE ART OF THE MOTION PICTURE":

“We do not fear censorship, for we have no wish to offend with improprieties or obscenities, but we do demand, as a right, the liberty to show the dark side of wrong, that we may illuminate the bright side of virtue - the same liberty that is conceded to the art of the written word - that art to which we owe the Bible and the works of Shakespeare.”

Em resposta às criticas e à celeuma causada por “The birth of a nation” Griffith acabou mais tarde por realizar “Intolerância” de que falarei daqui a uns tempos.
Sobre a mensagem veiculada no filme Griffith nunca se pronunciou com clareza e permanece a dúvida:
É um filme racista, um exercício de liberdade de expressão ou pretende apenas narrar factos históricos?
Incontornável é o facto de o filme continuar a suscitar debates actualmente e ainda ser utilizado pela KKK para recrutamento.

*Algumas inovações técnicas : Filmagem nocturna (usando “flashes” de magnésio); Filmagens no exterior; Still-Shots; ângulos de filmagem múltiplos, filmagem de acção em paralelo, panorâmicas, travellings, close-ups, dissolves e fade-outs para mudar de cena.


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